Ana Maria Machado e Ruth Rocha encantam crianças e adultos na Bienal

15 09 2009

Deu no Prosa online (por Guilherme Freitas, 12/9/2009):

12_CHA_cult_ruthana1Comemorando 40 anos de carreira dedicada aos livros e às crianças, as escritoras Ruth Rocha e Ana Maria Machado participaram nesta sexta-feira de um debate com clima de encontro de amigas. A mesa “40 anos formando e encantando leitores” reuniu o maior público do Café Literário até agora, atraindo muitas crianças, e adultos em número ainda maior, o que mostra como a obra das duas influenciou as gerações que se formaram nessas últimas quatro décadas. Numa conversa descontraída, as duas recordaram a longa amizade, falaram sobre a importância de Monteiro Lobato e criticaram as tendências atuais na literatura para crianças:

- Tenho notado muitos livros que fazem uma coisa politicamente correta, de auto-ajuda. Nesses livros, todo mundo é tão bonzinho, tão certinho, ninguém mais atira o pau no gato… Acho isso uma tendência triste. É muito artificial, não é literatura – lamentou Ruth.

Ana Maria fez coro com a amiga:

- Se nós duas começassemos hoje, dificilmente seríamos publicadas. A geração que começou na nossa época, eu, Ruth, Ziraldo, Marina Colasanti e outros, não era formada por pedagogos, éramos intelectuais esmagados pela ditadura que escoavam o que queriam dizer nos livros infantis.

O discurso politizado pode surpreender quem esperava apenas um debate sobre contos da carochinha, mas tanto Ruth quanto Ana Maria deixaram claro, desde o início da conversa, que suas preocupações na hora de escrever vão além de colocar as crianças para dormir. As duas falaram com admiração de Monteiro Lobato, cujas preocupações sociais elas se orgulham de ter herdado:

- Lobato fala do petróleo, da reforma agrária, da guerra, da ecologia. Ele tinha uma preocupação social grande e não temia passar isso para as crianças. Nós, que vivemos acontecimentos políticos muito marcantes na nossa geração, somos filhas do Monteiro Lobato – disse Ruth.

Para Ana Maria, é um erro tratar as crianças de forma infantilizada. Autora de muitos livros “adultos” (distinção que ela detesta) e de uma coletânea de poemas lançada recentemente (“Sinais do Mar”, Cosac Naify), ela diz que o escritor não deve alterar muito a linguagem para se comunicar com crianças:

- É claro que para a criança existem questões de vocabulário, o texto tem que ser mais concreto, sem muitas descrições nem abstrações. Um erro muito comum nos escritores iniciantes é dizer coisas como: “A esperança é aquilo que se guarda no cantinho do coração!” Mas a criança não entende nada disso… Não existe diferença na linguagem para adulto e para criança.

Adultos ou crianças, todos na plateia se divertiram com a conversa das amigas, que a partir de cada pergunta do mediador ou da plateia embarcavam num longo diálogo, uma interrompendo a outra, rindo e lembrando boas histórias. Houve espaço até para pequenas confissões, como a admiração de Ruth por um personagem de seriados infantis da TV politicamente incorretíssimo:

- Eu adoro o Chaves! Tem um diálogo ingênuo, infantil. Aquele Chaves é tão feinho, tão pobrinho, tão engraçadinho…





Yes, nós temos literatura infantil!

24 07 2008

Deu ontem no Valor Econômico (23/7/2008), por Beth Koike:

Nem só de Paulo Coelho vive a literatura brasileira no exterior. O mercado editorial nacional faturou R$ 14,4 milhões com a venda de direitos autorais a outras nações em 2006, uma alta de 4,2 em relação ao ano anterior. O valor ainda é pouco representativo se comparado aos R$ 194 milhões desembolsados pelas casas editoriais para compra de obras estrangeiras. Mas há sinais de que a exportação de direitos autorais de obras brasileiras continua crescendo e que o livro infantil, em especial, atrai interesse dos estrangeiros. Editoras como Melhoramentos, Companhia das Letras, Callis e Cosac registram maior procura pela literatura infantil brasileira por parte de compradores estrangeiros. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) também percebeu a movimentação e assina nesta quarta-feira um convênio com a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) para que as editoras do país vendam mais livros lá fora.

'Juan Felizario Contento' (Fondo de Cultura, México) - Versão em espanhol do livro 'João Felizardo, o rei dos negócios' (Cosac & Naify), de Angela Lago.

'Juan Felizario Contento' (Fondo de Cultura, México). Versão em espanhol de 'João Felizardo, o rei dos negócios' (Cosac & Naify), de Angela Lago.

Olhando só a proporção entre as importações e a exportações, precisaríamos exportar 15 vezes mais para nivelar ao valor das importações… É, a balança não é das mais favoráveis! Agora, se levarmos em conta a nossa longa história de exportação de matéria-prima (barata) e importação de produtos finais elaborados e industrializados (mais caros), um aumento de quase 50% na venda de direitos autorais de um produto cultural, o livro, é digno de estourar champanhe!

E, como diz a matéria, a alta é em grande parte decorrente do mercado de literatura infantil! O que é melhor ainda! De fato, em minhas leituras de literatura infantil estrangeira, que faço por conta do trabalho e dos estudos, o livro nacional na média não perde em nada em qualidade editorial, gráfica e literária para os gringos! É claro que existem grandes escritores estrangeiros… Para citar só um exemplo, há a inglesa Babette Cole, cujos títulos – bem-humorados, irreverentes, questionadores -, são em parte traduzidos pela Editora Ática… Mas também temos os nossos: Ana Maria Machado, Eva Furnari, Angela Lago, Ricardo Azevedo… e por aí vai!

Torço para que esse crescimento se repita no próximo ano… E em todos os outros!








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