Falar é fácil…

19 05 2009

Miguel FalabellaEsta semana saiu uma entrevista com o Miguel Falabella no UOL Televisão, em que ele critica o grau de instrução da população brasileira:

O nível mental das pessoas que assistem à tevê no Brasil é por volta de 9 anos de idade. Em comparação a um jovem francês, o que lê um jovem brasileiro? Um jovem francês lê 200 vezes mais. E um país que não tem educação nos condena à mediocridade. Aqui mesmo tem diálogos e piadas que as pessoas não entendem, porque não têm informação. É o que eu brinco: para entender o “Toma Lá Dá Cá” tem de, pelo menos, ter lido “A Moreninha”.

[...]

Ela [a tevê] precisa se repensar urgentemente, como um todo. Nós precisamos apontar novos caminhos – mas é muito difícil. Porque nós trabalhamos com uma matéria-prima que é a palavra. Quanto menos educado é o povo, menos você pode dizer as coisas, por que as pessoas não entendem. As pessoas não leem e não sabem escrever. É aterrador. Por isso enfatizo a educação. O povo precisa ser educado, a leitura tem de ser incentivada. Não sei o que vai acontecer, mas, obviamente, mudanças são necessárias. (Para ver a matéria completa clique aqui.)

Ele tem toda razão. A educação e a prática de leitura no Brasil está, de fato, longe do ideal.

Agora, é muito fácil dizer que o povo é sem educação e não entende a “arte” produzida por ele. Qual o comprometimento dele, enquanto formador de opinião e comunicador, com a educação?
O que ele (e os meios de comunicação de forma geral) tem feito para reverter essa situação?

Não dá só pra criticar e polemizar, né?





Cultural ou educacional, eis a questão

29 07 2008

Deu sábado (26/7) no O Globo:

Conforme Ancelmo Góis, a ABL apresentou um projeto de captação para uma nova edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Mas o MinC recusou. Alegou que o projeto era “educacional” e não “cultural”.

Para quem não sabe, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o VOLP, é uma obra que registra a ortografia correta das palavras da língua portuguesa. A nova edição dela é urgente, a fim de esclarecer as muitas dúvidas e lacunas deixadas pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (aquele que elimina o trema e mexe em regras de acentuação e de uso do hífen). A nova ortografia deve entrar em vigor no ano que vem e ser totalmente instituída até 2010, e niguém sabe se usa “re-escrever” ou “reescrever”, “girassol” ou “gira-sol”, etc (clique aqui para ver artigo sobre o assunto).

Agora, voltando à nota do Ancelmo Góis, alguém pode me explicar qual o limite entre o “cultural” e o “educacional” nesse caso?

O nosso ministro Gil concede tanto incentivo a projetos pseudoculturais, que servem na verdade de faixada para publicidade de empresas privadas (livros patrocinados pela indústria farmacêutica, centros pseudoculturais de bancos e afins) e, agora que há um projeto tão importante neste momento, ele lava as mãos… Alguém entende?





Leitura: espelho do leitor, espelho do texto

20 07 2008

Na última quinta-feira (17/7), tive o prazer de participar de um simpósio sobre literatura infantil na USP. Sob o título de “A narrativa ficcional para crianças e jovens e as representações literárias de práticas de leitura”, o simpósio foi um dos eventos do Congresso Internacional 2008 da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada).

As exposições giraram em torno de duas questões principais:

  1. de que forma o texto infantil reflete a sociedade que o criou: mostrando um tipo específico de leitor, um conceito de infância, uma moralidade social, costumes, um processo editorial etc.;
  2. que estratégias um texto infantil traz para que o leitor se veja refletido nele.

Como num jogo de espelhos, os textos infantis (como todo texto) são carregados preceitos morais e ideologias da sociedade, de certo modo numa tentativa de formar cidadãos segundo seus valores. De outro lado, o leitor busca no texto elementos de identificação: personagens e situações que condizam com seus valores pessoais e respondam a seus desejos e interesses.

Daí para mim a importância de que a formação crítica de leitores seja estimulada desde cedo… para que os pequenos, expostos constantemente a discursos ideológicos (não só nos livros, mas também na TV, na internet, e em todos os outros meios), possam perceber, entender e questionar esses textos.

Assim tavez possamos ter, num futuro, cidadãos mais conscientes. Para mim, esse é um dos grandes papéis da educação, e um dos únicos caminhos para uma sociedade melhor. O que acham?

Simpósio Abralic 2008

Prof. José Nicolau Gregorin Filho e profa. Maria Zilda da Cunha debatem sobre ideologia na literatura infantil, durante simpósio do Congresso Internacional 2008 da Abralic.

Para quem se interessar, fiz a seguir um resumo das três exposições mais relevantes do simpósio, com algumas observações pessoais:

Leitura: um jogo de espelhos

José Nicolau Gregorin Filho (USP – São Paulo/SP)

A partir da década de 1970, a literatura infantil no Brasil alcançou uma qualidade menos moralizante/dogmatizante e mais livre/estética (mas ainda assim, com função pedagógica, o que é quase indissocíavel da literatura para crianças). Principalmente desde então, ela tem espelhado a sociedade, os grupos sociais e suas transformações. Isso porque, segundo o prof. Nicolau, as LDBs (Leis de Diretrizes e Bases) e os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) homologam a discussão de temas considerados tradicionalmente “tabu” para a infância, a saber: a morte, o sexo e a violência. Como exemplo, é trabalhada a obra Um garoto chamado Rorbeto (Gabriel, o Pensador e Eduardo Bueno – Cosac Naify), que traz a história de um garoto que aprende a usar suas aparentes deficiências em seu favor. Assim, manifestam-se valores como inclusão e respeito às diferenças, defedidos pela sociedade contemporânea.

De estratégias de leitura aos desafios para medir a astúcia do viajante

Maria Zilda da Cunha (USP – São Paulo/SP)

A partir da metáfora do labirinto, a profa. Maria Zilda mostra um tipo de leitura, denominada por Lucia Santaella, como “imersiva ou navegadora”. Nesse tipo de texto, que tem por grande exemplo a obra de Jorge Luis Borges, o leitor é chamado a todo momento a optar por caminhos, uma vez que o texto deixa elementos abertos para intervenção do “viajante”. Entre outras obras, a profa. Maria Zilda, traz Zubair e os labirintos (Roger Mello – Cia. das Letrinhas) em que o leitor é levado junto com o protagonista para dentro de labirintos e, em determinado momento, inclusive, se confunde com este. A obra mostra um tipo de texto, com relações hipertextuais, que têm sido colocado em evidência, entre outros motivos, devido à emergência das novas mídias.

Narizinho e Emília: representações de cenas de leitura e construção do perfil da leitora novecentista na obra infantil de Monteiro Lobato

Patricia Katia da Costa Pina (UESC – Ilhéus/BA)

A partir de cenas das obras do Sítio do Picapau Amarelo em que a personagem Dona Benta lê para as personagens infantis, a profa. Patricia estabelece dois perfis de leitor, tendo por base as personagens Narizinho e Emília. Narizinho sempre ratifica (e às vezes amplia) o texto lido por Dona Benta e a interpretação da avó. Seus comentários são sempre paráfrases e reprodução das idéias do texto. O leitor tipo “Narizinho” seria então aquele leitor modelar, tradicional, que as famílias do início do século XX esperariam de suas crianças (Será que isso hoje mudou?). Já Emília transgride o sentido original dos textos e questiona a interpretação tradicional de Dona Benta. Seus comentários subvertem os textos e os parodiam. O leitor tipo “Emília”, seria o leitor crítico, que as diretrizes pedagógicas e as concepções modernas de infância esperariam das crianças (será que estamos rumando para isso?). Com isso, a profa. Patricia conclui que Lobato cria um recurso em que há duas possibilidades de identificação do leitor infantil: o leitor tradicional com a personagem Narizinho (e também com Pedrinho) e o leitor moderno com a personagem Emília.








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