Dia do Escritor: contra fel, moléstia, crime

28 07 2008

Na última sexta-feira (25/7), se comemorou o Dia Nacional do Escritor. Ao que parece, a data foi decretada em 1960, em decorrência do I Festival do Escritor Brasileiro, promovido pela União Brasileira de Escritores (UBE).

Manoel de Barros, poeta para crianças e adultos, compara o ofício do escritor (e de todo artista) ao de um catador de pregos sem ponta:

O catador

Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

(Em: Tratado geral das grandezas do ínfimo. Rio de Janeiro: Record, 2001.)

Se para Manoel de Barros a poesia é (e deve ser) “inútil”, para Chico Buarque ela serve para muita coisa:

Paratodos (1993)

[...]

Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto

[...]

Na prática, são duas formas de dizer o mesmo: a arte, por não se referir a nada objetivo, por não ter uma utilidade prática, com suas metáforas, alcança cada um de formas diferentes. É por isso que se relemos uma obra anos depois, descobrimos na obra imagens que antes não tínhamos reparado. É claro que não foi a obra que mudou, fomos nós: nossos pensamentos, dúvidas, sentimentos… É como um espelho: cada um que se põe diante dele, vê algo diferente (um pouco de si e do ambiente ao redor). Se mudamos a posição, o olhar, ou se nós mesmos mudamos a imagem no espelho também se transforma.

Meu profundo agradecimento aqui aos escritores que, com suas obras, me provocam e se esforçam em nos livrar do automatismo e a enxergar melhor o nosso redor e a nós mesmos.





Reseana Murray: simplicidade profunda

22 07 2008

Há mais ou menos sete anos, num dos meus primeiros contatos “adultos” com a literatura infantil, li “Receita de arrumar gaveta” de Roseana Murray:

separe coisa por coisa:
de um lado o pólen do passado
as raízes do que foi importante
os retratos os bilhetes
os horários de chegada
de todos os navios-piratas
os sinos que anunciam
que há um amigo na estrada

do outro lado um espaço vazio
para o que vai acontecer
as surpresas do destino
os desatinos do acaso

Receitas de olhar, FTD.

Fiquei fascinado pelas imagens que o poema criou na minha cabeça: com um texto simples em palavras, me provocou sentidos abissais.

Roseana Murray lê o seu Rios da alegria (Moderna).

De lá para cá, sempre que encontro com um livro seu, o devoro… E constatei que a dualidade simplicidade-profundidade era uma característica recorrente de sua obra. Retratos (Cia. Editora Nacional), O silêncio dos descobrimentos (Paulus), Fruta no ponto (FTD), Terremoto furacão (Paulus), Classificados poéticos (Cia. Editora Nacional) são alguns dos meus preferidos. Conheci também poemas de Roseana para adultos, mas eles não têm o mesmo “poder” que os infantis (pelo menos sobre mim).

Se quiser experimentar um pouco da mágica de Roseana, acesse o site: www.roseanamurray.com. Lá você encotra um pouco sobre a autora, poemas e, inclusive, um e-book… o Variações sobre silêncio e cordas, que ela lançou recentemente para a internet. Ah, o e-book é ilustrado pelo bico-de-pena de Elvira Vigna, constante parceira literária de Roseana.