Olhar de descoberta na formação de leitores navegativos

4 08 2010

1. Introdução

 Em 1996, Lucia Pimentel Góes publicou Olhar de descoberta: proposta analítica de livros que concentram várias linguagens, marco na teoria literária infantil/juvenil no Brasil. Pela primeira vez, definiu-se com clareza o novo paradigma da produção literária para crianças e jovens que vinha se evidenciando desde a década de 1970. São obras que concentram múltiplas linguagens (em particular, o código escrito e o visual) e que se constroem em rico diálogo intertextual.

Antes, as obras literárias para crianças se assemelhavam aos livros tradicionais para adultos, em que o código verbal escrito costuma sobrepor-se aos demais. Até então as imagens ocupavam espaço tímido nos livros, cumprindo principalmente funções descritivas, narrativas e decorativas. Contudo, a partir da década de 1970, outras linguagens ganham espaço nas obras infantis, com destaque para as ilustrações. As ilustrações do livro infantil atual têm papel fundamental na obra ao lado da narrativa escrita, trazendo para o leitor pelo menos duas visões em diálogo (o discurso das ilustrações e o da escrita), o que tende a multiplicar as possibilidades de sentido das obras infantis nesta relação visual–verbal.

Junto ao diálogo entre escrita e ilustrações, há um aprofundamento das referências intertextuais e da linguagem simbólica dos textos, enriquecendo o significado das obras e elevando a literatura infantil/juvenil ao patamar da grande literatura.

Lucia Pimentel Góes denomina este novo paradigma da literatura infantil de “objeto novo”.

Tais transformações nos textos para crianças decorrem de uma concepção emergente de infância. Aos poucos, essa fase deixa de ser considerada mera preparação para a vida adulta, em que o indivíduo precisa ser formado o quanto antes sob uma moral tradicional, passando-se a se cultivar também as características próprias da infância. Trata-se de uma valorização da criança inventiva e criativa, e de uma educação que quer construir uma sociedade mais justa, crítica, sensível e inclusiva. Nesse sentido, com uma visão pedagógica menos cartesiana, levando em conta as especificidades de ser criança, é que se fazem possíveis e bem-vindos o diálogo intercódigos, o simbolismo e a intertextualidade na literatura infantil.

Junto a isso, avanços gráficos, como a preparação de fotolitos (matrizes para impressão) por técnicas digitais, em lugar da fotocomposição (fotossensibilização), aprimoram a qualidade de reprodução de imagens e de cores. Essa melhora técnica viabiliza a produção das obras visualmente mais ricas, tornando possível o projeto do “objeto novo”.

A partir da década de 1990, avanços tecnológicos na área da computação – tais como a miniaturização dos computadores (microcomputadores, notebooks, netbooks, palmtops etc.) e a popularização dessas máquinas – possibilitaram um aprofundamento dessas relações intercódigos e intertextuais nos textos. A essas obras – em que o diálogo intercódigos ultrapassa a relação ilustração–escrita, e a intertextualidade se concretiza em hipertexto – denominamos de literatura navegativa. Assim, o leitor do “objeto novo” proposto por Lúcia Pimentel Góes, hoje precisa ainda mais do olhar de descoberta para explorar os nós e nexos dos textos potenciais da hipermídia.

2. O “objeto novo” e o boom da literatura infantil

 A “descoberta da qualidade específica do ser criança” (COELHO, 1991: 138) que ocorre ao longo o século XX culmina no chamado boom da literatura infantil entre as décadas de 1970 e 1980. Conforme Lucia Pimentel Góes:

 [Antes] não se admitia um leitor ativo, movido por seus sentidos. Na literatura infantil e juvenil tradicional, ligada à pedagogia, a criança é um receptor passivo. A história era vista como um processo de transmissão de informações morais. A concepção atual rompeu com essa ideologia (GÓES, 2003:15).

 Assim, um novo momento da literatura infantil/juvenil no Brasil surgiu no último quarto do século XX. Em oposição à literatura moralista e dogmática de até então, aparece o experimentalismo e o questionamento de tudo que era tido como verdade absoluta.

Às obras publicadas sob essa nova ótica Lucia Pimentel Góes denomina com gradne lucidez de “objeto novo”: 

 “Objeto novo” é a denominação por nós sugerida para os livros que apresentam uma concentração de linguagens de natureza vária e variada. Para lê-lo em fruição plena é preciso um olhar de descoberta (GÓES, 2003: 19).

 As características fundamentais do “objeto novo” são:

 a)                textos plenos de significados e intertextualidades. Para uma leitura mais proveitosa dele é preciso um “olhar de descoberta”, investigativo;

b)                sua leitura se faz de forma lúdica e possibilita o aprendizado que as situações do mundo real não oferecem, antes bloqueiam, traumatizam ou subvertem;

c)                seu processo de significação parte da relação leitor-texto, a partir dos aspectos sensoriais, emocionais e racionais;

d)                o leitor que assim lê pode desenvolver sua expressão criadora ou sua capacidade de criar, inventar, relacionar, comparar, escolher, optar, desenvolver.

 O “objeto novo” exige do leitor “olhar de descoberta” para sua plena fruição. São textos que favorecem leituras plurais. São “palavra gorda, obesa”, textos simbólicos, dialógicos, exercitando o olhar plural, estimulando a sensibilidade, a criatividade e a formação crítica do leitor.

 O leitor da intertextualidade pode ad-mirar, pois tem os sentidos despertos, memória avivada e acionada, vendo o que existe, sem submeter-se às leituras-desvios, pois as detecta. Conhece o texto como prática intertextual e intersemiótica, reconhece a inter-relação e a dialética da linguagem em movimentos circulares de renovação-revolução. Leitura, espaço deflagrador de outras ações-revoluções. Sinestesia da percepção, porque cruzamento de sensações. (GÓES, 2003: 24)

 O advento das mídias digitais, como se demonstrará a seguir, possibilita uma renovação e um aprofundamento dessas características. A intertextualidade se concretiza em hipertextualidade, o olhar de descoberta se faz leitura navegativa e a concentração de linguagens se agudiza em diálogo intercódigos.

 

3. A hipermídia: traços definidores

A hipermídia é um suporte virtual, que se tornou evidente nas mídias digitais, sobre o qual se revelam textos em códigos variados e mistos, conectados de forma hipertextual.

A linguagem digital (código binário) armazena em um mesmo formato informações sonoras, visuais e verbais e conecta essas informações, reunindo em um mesmo suporte, gêneros textuais que antes só podiam ocupar lugares distintos, por exemplo: um artigo de jornal escrito e uma vídeo-reportagem, ou uma música e um conto.

Com a popularização da internet, esses textos podem ser criados e lidos quase instantaneamente em qualquer ponto do globo. Assim, o leitor da hipermídia tem contato rápido e simples a uma ampla gama de textos, desde que tenha acesso a um computador conectado à internet e que domine os mecanismos de leitura-navegação na rede.

Desse modo, junto com a cultura hipermidiática torna-se evidente um tipo especial de leitura: a leitura navegativa. É a leitura da multiplicidade de linguagens, da seleção/inter-relação das infinitas informações veiculadas pelos meios digitais. É a leitura da tela do computador, que “navega entre nós e conexões alineares pelas arquiteturas líquidas dos espaços virtuais” (SANTAELLA, 2004: 31).

É uma leitura que exige seletividade, para que o leitor não se perca nos mares virtuais. O leitor navegativo tem (ou deveria ter) consciência de que o mundo é muito maior do que ele pode dominar e escolhe, na infinidade de textos que tem à disposição (todos a distancia de poucos cliques), os textos e caminhos que lhe interessam.

Podemos definir três características principais da linguagem hipermidiática: o diálogo intercódigos (nas matrizes visual, verbal e sonora), a hipertextualidade e a interatividade. Ainda que nenhuma delas seja exclusiva das mídias digitais, encontram na computação e na internet terreno fértil para desenvolver suas potencialidades.

3.1. O diálogo intercódigos e a concentração de linguagens

 Tendo se estabelecido sob influência das mídias audiovisuais (período do boom da literatura infantil), o diálogo intercódigos se amplia na literatura navegativa. Isso acontece em decorrência da plasticidade do sistema digital, capaz de traduzir múltiplas linguagens sob um mesmo código binário. Isso, aliás, é o que permitiu o fenômeno chamado de “convergência das mídias”: jornal, tevê, telefone, agenda, vídeo, música, livro etc., em um mesmo suporte digital (o computador, o celular, o palmtop etc.).

Assim, para uma leitura navegativa é necessária habilidade do leitor nos vários códigos e em entrecruzá-los, já que a compreensão mais plena do significado dos textos apresentados nesses novos suportes se dá pelo produto (pela inter-relação) das várias linguagens:

 [É] a hibridização de linguagens, processos sígnicos, códigos e mídias que a hipermídia aciona e, consequentemente, a mistura de sentidos receptores, a sensorialidade global, sinestesia reverberante que ela é capaz de produzir, na medida mesma em que o receptor ou leitor imersivo interage com ela, cooperando na sua realização (SANTAELLA, 2004: 47-48).

 Esse conceito converge com uma das características do “objeto novo” proposto por Lúcia Pimentel Góes: a concentração de linguagens. Assim, tanto no “objeto novo”, quanto nos textos intercódigos é essencial o diálogo de códigos e linguagens: “Situamos o livro de literatura infantil e juvenil entre duas balizas: o texto só-imagem, de um lado, e, de outro, o texto só-verbal. Entre ambas há um rico e variado acervo de obras que concentram várias linguagens” (GÓES, 2003: 19).

3.2. A hipertextualidade e a intertextualidade

 Além de serem intercódigos, os textos hipermidiáticos são descentralizados e alineares, uma vez que os trechos de texto (em múltiplos códigos) se conectam por meios de nexos (promovendo a leitura não-linear), e o leitor pode principiar a leitura por diversos nós (e até por pontos diferentes dentro do mesmo nó, promovendo a descentralização da leitura).

Um nó é um trecho de texto (que pode ou não ter sentido completo) cuja significação se amplia (ou se completa) pela navegação, conectando-se a outros nós. Ele pode ser um bloco de vídeo, de som, de escrita, uma imagem, uma animação etc.

Os nexos, por sua vez, são conexões entre um nó e outro. Eles são ativados pela interação do usuário, geralmente pelo clique do mouse em um hiperlink (uma palavra, expressão, imagem… do nó que serve para transportar o leitor a outros pontos da rede correlacionados).

Graficamente poderíamos representar um nó como um ponto no cruzamento entre os fios de uma rede, e os nexos como os trechos de fio entre um ponto e outro. Essa forma de leitura, que se constrói pela navegação entre nós por meio de nexos dá-se o nome de hipertextual.

Como se pode perceber, a hipermídia é um espaço de textos potenciais que só se completam (de modo efêmero) pela intervenção do usuário. Trata-se da “capacidade de armazenar informações e, por meio da interação do receptor, transmutar-se em incontáveis versões virtuais” (SANTAELLA, 2004: 49). Assim, nos textos navegativos, a leitura não segue uma sequência linear. A leitura muitas vezes pode começar em diversos pontos da tela e há sempre a possibilidade de se dirigir a um ou outro nó, de acordo com o interesse do leitor.

 Assim, a intertextualidade do “objeto novo” descrito por Lúcia Pimentel Góes, agora é concretizado também como hipertextualidade nos textos navegativos. Enquanto na intertextualidade os textos referidos estão fora do texto lido (referências extratextuais), no hipertexto, eles se encontram dentro da própria mídia, podendo ser acessados por meio dos nexos.

3.3. A interatividade e o olhar de descoberta

 No computador, por meio do teclado, do mouse, de um joystick, de uma webcam etc., o leitor-navegador interage com o texto, escolhendo os caminhos da sua leitura e às vezes deixando marcas no próprio texto. A palavra “interação”, contudo, designa de forma ampla a relação entre dois ou mais elementos. Francis Kretz (apud SANTAELLA, 2004: 155) oferece uma classificação muito útil, na qual distingue seis tipos de interação leitor-texto. Delas, quatro são recorrentes e características nos textos hipermidiáticos:

 a)                Interatividade arborescente – aparece nos textos em que há escolhas, caminhos a serem selecionados. A leitura hipertextual se baseia nesse tipo de interação. Por meio dos links, o leitor navega pelo texto, escolhe se quer saber mais sobre este ou aquele assunto, se prefere este ou aquele caminho. Um exemplo de texto infantil que evidencia a interatividade arborescente é a Interminável Chapeuzinho (Angela Lago)[1]. Nessa história há um ponto de saída comum: a cena da Chapeuzinho conversando com a mãe. A partir daí o leitor opta por caminhos, clicando nas opções que aparecem na tela. Outro modelo de interatividade arborescente, no suporte impresso são os livros-jogos que ficaram famosos na década de 1990. Inspirados nos role-playing games (RPGs), no fim de cada trecho de texto, o leitor-jogador decidia por um dos caminhos possíveis, seguindo a leitura na página indicada para aquela opção.

b)                Interatividade lingüística – ocorre nos textos em que o leitor seleciona informações ou textos por meio de formulários ou palavras-chave. É o caso dos sites de busca (ex.: Google) ou das pesquisas em bibliotecas e livrarias virtuais. A obra digital Fairy tales[2] explora literariamente esse tipo de interação. Nele, pelo preenchimento de um formulário, o leitor “personaliza” o conto de fadas que irá ler.

c)                Interatividade de criação – nesse tipo de interação o leitor/usuário pode interferir no conteúdo. É o caso dos comentários deixados em blogs ou dos conteúdos colaborativos (ex.: Wikipédia). No site de Sérgio Capparelli[3], por exemplo, o leitor pode completar versos e rimas de vários poemas infantis.

d)                Interatividade de comando contínuo – caracteriza-se pela modificação, deslocamento de objetos visuais ou sonoros por manipulação, como acontece nos videogames. No ciberpoema “Chá”[4], de Sérgio Capparelli e Anna Cláudia Gruszynsk, o leitor pode colocar diversas imagens dentro de uma xícara, arrastando-a com o mouse. É um uso típico da interatividade de comando contínuo, na literatura para crianças.

 É importante destacar que essa divisão é apenas teórica, de modo que é possível encontrar, num mesmo texto, simultaneamente várias dessas formas de interação entre leitor e texto.

Assim, é fundamental ter “olhar de descoberta” para fruir os textos navegativos. Nele, o leitor é chamado sempre a optar, a decidir que caminho seguir a partir do hiperlinks (índices dos nós a que se referem), cada trajeto com uma consequência, cada percurso, uma nova leitura. E a leitura de cada nó, textos em vários códigos simultâneos (imagens, escritos, animações, sons etc. em diálogo), requer também “olhos bem abertos” para captar os múltiplos sentidos resultantes da associação das várias linguagens.

 4. Exemplos de textos navegativos na literatura infantil

 Selecionamos alguns entre muitos exemplos de textos navegativos para crianças e adolescentes.

Entre as obras impressas temos:

 a)                Obras em que há notas marginais e quadros explicativos ­– em Que história é essa? 2, de Flávio de Souza (2000), os textos principais são completados por quadros com charadas, enigmas e curiosidades para o leitor. Já em Todos contra D@nte, de Luís Dill (2008), quadros detalham e explicam trechos específicos da obra.

b)                Obras em que há diálogos intercódigos e intergêneros — em De fora da arca, de Ana Maria Machado (2004), além da narrativa principal, há partitura e letra de música, bem como eu texto explicativo sobre a história dessa música. Em 17 é tov, de Tatiana Belinky (2005), a narrativa ficcional divide espaço com fotografias documentais e com informações históricas.

c)                Obras com estrutura labiríntica, não-linear, descentralizada – como em Zubair e os labirintos, de Roger Mello (2007), e em Todos contra D@nte, de Luís Dill (2008), em que a leitura pode ser feita de diversas formas, organizando blocos de texto.

 Assim, como nos textos que acabamos de listar, a leitura navegativa extrapola as mídias digitais, influenciando a mídia impressa. Ainda assim, é no computador e na internet que essa leitura tem se manifestado de forma mais patente, uma vez que foi a partir dela que essa leitura se evidenciou. Ela aparece muita claramente, por exemplo, nos textos dos sites de Angela Lago[5] e Sérgio Caparelli[6], alguns deles citados ao longo deste artigo.

5. Considerações finais

 Os textos navegativos (ou, melhor, a leitura navegativa) levam a um elevado grau de intersemiose (concentração de linguagens). Para além do diálogo ilustração–escrita típica do “objeto novo”, na hipermídia essa relação extrapola para outros códigos, além dos diálogos intergêneros. A intertextualidade, por sua vez, se configura também como hipertextualidade. Por meio dos hiperlinks, as inter-relações de obras se tornam concretamente acessível durante a leitura.

Assim, pela virtualidade de sua interface e pelo modo como foi historicamente construída, a leitura navegativa favorece, num leitor proficiente, uma leitura intercódigos, intergêneros, hipertextual, associativa e interativa, propondo vários caminhos e formas de leitura de acordo com o interesse do leitor.

Como se pode constatar pelas obras citadas, a influência da hipermída na literatura para crianças já é bastante evidente e difundida no Brasil. Para que o leitor possa escolher caminhos e usufruir dessa multiplicidade de alternativas, é necessário que ele tenha habilidade nos vários tipos de leitura, textos e suportes. Dessa forma, a sua formação plena, deve contemplar toda essa variedade. Ou seja, é necessário um ensino de leitura que, além dos textos tradicionais, contemple práticas de leitura significativas e diversificadas. Nesse sentido, a afirmação de Lucia Pimentel Góes (2003: 114) continua atual e urgente: “o leitor se constroi quando consegue atribuir significado à palavra, interagindo com um contexto. Que jogo pode ser mais divertido e estimulante do que ler jogando ou ler brincando?”.

Por ser intersemiótico e intertextual, o “objeto novo” segue válido e a sua compreensão fundamental para o estudo da leitura navegativa evidenciada pelas mídias eletrônicas. Os livros infantis dessa primeira década do século XXI demandam cada vez mais “olhos bem abertos, arregalados” dos pequenos leitores, estimulando neles a criatividade, a sensibilidade e o senso crítico. Desse modo, o “objeto novo”, vislumbrado por Lúcia Pimentel Góes há mais de uma década, segue “novo”, “novíssimo”, referência obrigatória para todos os envolvidos na formação dos novos leitores: pais, educadores, estudantes de Letras e Pedagogia e estudiosos da literatura para crianças e jovens.

6. Bibliografia

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________. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Trad. Reginaldo de Moraes. São Paulo: Unesp, 1998.

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ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 2003.

________. Fim do livro, fim dos leitores?. São Paulo: Senac, 2001.


[1] Disponível em http://www.angela-lago.com.br (acesso em 7/6/2010).

[2] Disponível em http://wetellstories.co.uk/stories/week3 (acesso em 7/6/2010).

[3] http://www.capparelli.com.br (acesso em 7/6/2010).

[4] http://www.capparelli.com.br (acesso em 7/6/2010).

[5] Disponível em http://www.angela-lago.com.br (acesso em 7/6/2010).

[6] Disponível em www.capparelli.com.br (acesso em 7/6/2010).





Ana Maria Machado e Ruth Rocha encantam crianças e adultos na Bienal

15 09 2009

Deu no Prosa online (por Guilherme Freitas, 12/9/2009):

12_CHA_cult_ruthana1Comemorando 40 anos de carreira dedicada aos livros e às crianças, as escritoras Ruth Rocha e Ana Maria Machado participaram nesta sexta-feira de um debate com clima de encontro de amigas. A mesa “40 anos formando e encantando leitores” reuniu o maior público do Café Literário até agora, atraindo muitas crianças, e adultos em número ainda maior, o que mostra como a obra das duas influenciou as gerações que se formaram nessas últimas quatro décadas. Numa conversa descontraída, as duas recordaram a longa amizade, falaram sobre a importância de Monteiro Lobato e criticaram as tendências atuais na literatura para crianças:

- Tenho notado muitos livros que fazem uma coisa politicamente correta, de auto-ajuda. Nesses livros, todo mundo é tão bonzinho, tão certinho, ninguém mais atira o pau no gato… Acho isso uma tendência triste. É muito artificial, não é literatura – lamentou Ruth.

Ana Maria fez coro com a amiga:

- Se nós duas começassemos hoje, dificilmente seríamos publicadas. A geração que começou na nossa época, eu, Ruth, Ziraldo, Marina Colasanti e outros, não era formada por pedagogos, éramos intelectuais esmagados pela ditadura que escoavam o que queriam dizer nos livros infantis.

O discurso politizado pode surpreender quem esperava apenas um debate sobre contos da carochinha, mas tanto Ruth quanto Ana Maria deixaram claro, desde o início da conversa, que suas preocupações na hora de escrever vão além de colocar as crianças para dormir. As duas falaram com admiração de Monteiro Lobato, cujas preocupações sociais elas se orgulham de ter herdado:

- Lobato fala do petróleo, da reforma agrária, da guerra, da ecologia. Ele tinha uma preocupação social grande e não temia passar isso para as crianças. Nós, que vivemos acontecimentos políticos muito marcantes na nossa geração, somos filhas do Monteiro Lobato – disse Ruth.

Para Ana Maria, é um erro tratar as crianças de forma infantilizada. Autora de muitos livros “adultos” (distinção que ela detesta) e de uma coletânea de poemas lançada recentemente (“Sinais do Mar”, Cosac Naify), ela diz que o escritor não deve alterar muito a linguagem para se comunicar com crianças:

- É claro que para a criança existem questões de vocabulário, o texto tem que ser mais concreto, sem muitas descrições nem abstrações. Um erro muito comum nos escritores iniciantes é dizer coisas como: “A esperança é aquilo que se guarda no cantinho do coração!” Mas a criança não entende nada disso… Não existe diferença na linguagem para adulto e para criança.

Adultos ou crianças, todos na plateia se divertiram com a conversa das amigas, que a partir de cada pergunta do mediador ou da plateia embarcavam num longo diálogo, uma interrompendo a outra, rindo e lembrando boas histórias. Houve espaço até para pequenas confissões, como a admiração de Ruth por um personagem de seriados infantis da TV politicamente incorretíssimo:

- Eu adoro o Chaves! Tem um diálogo ingênuo, infantil. Aquele Chaves é tão feinho, tão pobrinho, tão engraçadinho…





Monteiro Lobato, de A a Z

21 11 2008

livro-a-livroEm 2008, completam-se 60 anos da morte de Monteiro Lobato, e 88 anos da publicação de sua primeira obra infantil, A menina do narizinho arrebitado (1920). Este livro, onze anos mais tarde, seria reescrito e ampliada sob o título de Reinações de Narizinho (1931).

Ainda que Lobato tenha sido também editor, autor de literatura adulta e figura importante da política nacional, sua popularidade se deve principalmente às histórias infantis do Sítio do Picapau Amarelo. São mais de vinte livros, que contam com várias edições, além de inúmeras adaptações para o teatro e cinco versões para a televisão.

Reinações de Narizinho (déc. 1940), Editora Brasiliense.Reinações de Narizinho (2007), Editora Globo.

Reinações de Narizinho, Editora Brasiliense (c. 1947), e em edição atual da Editora Globo (2007).

A editora Brasiliense, fundada em 1943 por Caio Prado Jr., tendo como sócio Monteiro Lobato, deteve até recentemente os direitos de publicação das histórias do Sítio. Em 2006, os herdeiros de Lobato passaram esses direitos à editora Globo. Desde então, a obra de Lobato, infantil e adulta, tem ganhado novas ilustrações, novo projeto gráfico e uma ótima distribuição.

Sem entrar no mérito da preferência pelo novo ou pelo antigo visual, o fato é que, com a mudança de editora – e com a presença diaria das personagens do Sítio na televisão -, a obra de Lobato recobrou fôlego, aparecendo com mais destaque nas livrarias e nas mãos dos leitores.

Com esse movimento editorial em torno de Lobato, têm chegado às livrarias também, aqui e ali, obras de referência sobre o autor. E, sem dúvida, uma das mais importantes foi lançada na semana passada na Livraria Cultura, em São Paulo.

No último dia 18/11, Marisa Lajolo (professora da Unicamp e do Mackenzie, especialista em leitura e em Lobato) e João Luís Ceccantini (professor da Unesp e especialista em literatura infantil) receberam amigos e convidados para autografar a obra Monteiro Lobato, livro a livro (Editora da Unesp, Imprensa Oficial). Estiveram presentes figuras importantes do meio editorial infantil, como o escritor Pedro Bandeira e os editores Plinio Martins Filho (Edusp), Maria Dolores Prades (SM) e Maristella Petrili (Moderna).

Claro que eu estava lá para garantir o meu. Chegando em casa, devorei as primeiras páginas. Imperdível! São 28 artigos sobre todas as publicações infantis de Lobato, muito bem escritos, que revêem e atualizam a pesquisa sobre o autor. Trata-se de uma obra de referência fundamental para quem quiser conhecer um pouco mais sobre Lobato, desejar iniciar uma pesquisa na área e até para os já iniciados.





Novidade editorial

21 08 2008

Amigos, no primeiro post deste blog, disse que estava envolvido com o projeto de um novo selo de literatura infantil. Falei também que, quando pudesse, contaria mais. Chegou a hora…

A nova editora é a Mundo Mirim, um selo de literatura e livros informativos para o público infantil e juvenil. Além das crianças e os adolescentes, a Mundo Mirim é também voltada a educadores, com a publicação de livros para a formação continuada e com ferramentas práticas para a sala de aula.

E ela está nascendo! Já temos os primeiros títulos e um blog: mundomirim.wordpress.com.

E muita coisa está por vir ainda! Mais uma porção de livros em produção, com escritores e ilustradores de primeira linha, e um lançamento oficial no início do ano que vem! No próximo post, sobre a Bienal, vou falar um pouco mais sobre os autores.

Tem sido um trabalho muito prazeroso e desafiador pra mim. Espero que tenha longa vida , e que vocês gostem do resultado!





“Passou o tempo” de Elias José

6 08 2008
Anselmo Gomes)

Elias José em sessão de autógrafos na Livraria da Vila, São Paulo. (Foto: Anselmo Gomes)

Tempo

Passou o tempo de roubar amoras,
mangas, goiabas e mexericas
no quintal dos vizinhos.

Passou o tempo de sonhar vitórias,
com sorriso de campeão
de futebol, basquete ou corrida de carro.

Passou o tempo de empinar pipas
e dar asas aos olhos e ao corpo
para soltar-me no espaço com elas.

Passou o tempo de não ter vergonha de ser rei dos castelos de areia
ou de esconder tesouros de figurinhas,
bolinhas de gude e pedras preciosas.

Passou o tempo de caçar briga,
chamar pro abraço ou xingar a mãe
e a raça toda do amigo-inimigo.

(Elias José. Cantigas de adolescer. São Paulo: Atual, 1992)

No último sábado (dia 2) ficamos um pouco órfãos. O escritor mineiro Elias José faleceu, aos 72 anos, vítima de pneumonia. Nelly Novaes Coelho assim o definiu:

Elias José é dos escritores que se constroem ou reconstroem a cada novo livro, conscientes de que o discurso literário ou a escritura é o elemento-chave da criação literária. A matéria que mais o atrai é a que desafia os limites entre o real e o maravilhoso ou entre o conhecido e o mistério. Nos livros para adultos, essa matéria pe dramática e densa; nos livros para a meninada, surge filtrada pelo humor, ludismo, alegria e emoções. (Nelly Novaes Coelho. Dicionário crítico da literatura infantile juvenil brasileira. p. 289. São Paulo: Edusp, 1995. Atualmente publicado pela Cia. Editora Nacional)

Para mim, Elias José é daqueles autores que, por mais que tenham escrito, farão muita falta por todas as poesias e histórias que ficaram em sua cabeça e não se transformaram em palavras. Mas, para amenizar um pouco essa ausência, Elias José deixou mais de cem livros. Neles poderemos sempre ler suas histórias e sua poesia, “fruta doce e gostosa”.

E, agora, “quem quiser que conte outra”





Evento: O papel das bibliotecas na formação do leitor

30 07 2008

Amanhã, na Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro), acontecerá um debate sobre o papel das bibliotecas na formação do leitor. O evento faz parte do ciclo “Leitura em Debate: a Literatura Infantil e Juvenil”, que acontece sempre na última quinta-feira de cada mês.

Esta edição será mediada pela escritora infantil-juvenil Anna Claudia Ramos, e contará com a presença de Maria Augusta da Nóbrega Cesarino, Ana Lígia Medeiros e Isabella Massa.

Para mim, eventos como esse são importantíssimo, uma vez que trazem a discussão, o número insuficiente e a qualidade deficitária das bibliotecas públicas no Brasil. A ampliação dessa rede (aproximando-se mais de todo os públicos), a atualização do acervo (incluindo títulos recentes, e também áudio, vídeo e multimídia) e uma renovação na concepção desse espaço (com eventos interessantes, profissionais especializados, ambientes mais agradáveis) é fundamental para a tão sonhada democratização da leitura.

Para quem não puder ir pessoalmente, o debate terá transmissão simultânea no site do Instituto Embratel (no link TV PontoCom) , que apóia o evento.

Onde: Fundação Biblioteca Nacional (ou no link da  TV PontoCom)

Quando: 31/7, às 16h

Veja mais informações no convite oficial.





Yes, nós temos literatura infantil!

24 07 2008

Deu ontem no Valor Econômico (23/7/2008), por Beth Koike:

Nem só de Paulo Coelho vive a literatura brasileira no exterior. O mercado editorial nacional faturou R$ 14,4 milhões com a venda de direitos autorais a outras nações em 2006, uma alta de 4,2 em relação ao ano anterior. O valor ainda é pouco representativo se comparado aos R$ 194 milhões desembolsados pelas casas editoriais para compra de obras estrangeiras. Mas há sinais de que a exportação de direitos autorais de obras brasileiras continua crescendo e que o livro infantil, em especial, atrai interesse dos estrangeiros. Editoras como Melhoramentos, Companhia das Letras, Callis e Cosac registram maior procura pela literatura infantil brasileira por parte de compradores estrangeiros. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) também percebeu a movimentação e assina nesta quarta-feira um convênio com a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) para que as editoras do país vendam mais livros lá fora.

'Juan Felizario Contento' (Fondo de Cultura, México) - Versão em espanhol do livro 'João Felizardo, o rei dos negócios' (Cosac & Naify), de Angela Lago.

'Juan Felizario Contento' (Fondo de Cultura, México). Versão em espanhol de 'João Felizardo, o rei dos negócios' (Cosac & Naify), de Angela Lago.

Olhando só a proporção entre as importações e a exportações, precisaríamos exportar 15 vezes mais para nivelar ao valor das importações… É, a balança não é das mais favoráveis! Agora, se levarmos em conta a nossa longa história de exportação de matéria-prima (barata) e importação de produtos finais elaborados e industrializados (mais caros), um aumento de quase 50% na venda de direitos autorais de um produto cultural, o livro, é digno de estourar champanhe!

E, como diz a matéria, a alta é em grande parte decorrente do mercado de literatura infantil! O que é melhor ainda! De fato, em minhas leituras de literatura infantil estrangeira, que faço por conta do trabalho e dos estudos, o livro nacional na média não perde em nada em qualidade editorial, gráfica e literária para os gringos! É claro que existem grandes escritores estrangeiros… Para citar só um exemplo, há a inglesa Babette Cole, cujos títulos – bem-humorados, irreverentes, questionadores -, são em parte traduzidos pela Editora Ática… Mas também temos os nossos: Ana Maria Machado, Eva Furnari, Angela Lago, Ricardo Azevedo… e por aí vai!

Torço para que esse crescimento se repita no próximo ano… E em todos os outros!





Boneca de pano ganha de Harry Potter na mente dos leitores

23 07 2008
Em�lia, ilustrada por J. U. Campos (1947), e cena do filme Harry Potter e a Ordem da Fenix (2007)

Emília, ilustrada por J. U. Campos (1947), e cena do filme Harry Potter e a Ordem da Fenix (2007).

No começo do mês, saiu o relatório Retratos do livro no Brasil. Ele é resultado de uma extensa pesquisa promovida pelo Instituto Pró-Livro (uma parceria entre o governo e entidades privadas do livro no Brasil). A maioria dos dados apresentados, ainda que tristes constatações, não são novidade:

  • Apenas 8% da população considera a leitura uma atividade prazerosa, associando-a na maioria das vezes à obtenção de conhecimento.
  • Quase metade dos entrevistados (45%) não leu nenhum livro nos últimos três meses.
  • Dos outros 55%, metade são estudantes, que afirmam que lêem o que a escola indica (o que inclui os livros didáticos!)

Ainda assim, para a nossa literatura infantil, há notícias boas, como a de que o gênero está entre os quatro mais lidos (perdendo só para a Bíblia, em primeiro lugar, para os livros didáticos e para os romances). Além disso, cerca de 75% da crianças e adolescentes são leitores (20% a mais que a média).

Mas durante a leitura do relatório um dado curioso me surpreendeu: Lobato é o escritor mais admirado pelos leitores (e entre os 10 mais, há também Cecília Meireles e Maurício de Souza, autores reconhecidos por sua produção para crianças). O pai de Emília está à frente inclusive de Paulo Coelho e Jorge Amado (escritores bastante populares) e de Machado de Assis (considerado por muitos como o maior escritor da literatura brasileira)… É claro que Lobato tem também importantes obras de literatura para adultos, como Urupês e Negrinha, mas algo me diz que a Condessa de Três Estrelinhas tem um dedo nisso…

Os dez escritores mais admirados

  1. Monteiro Lobato
  2. Paulo Coelho
  3. Jorge Amado
  4. Machado de Assis
  5. Vinícius de Moraes
  6. Cecília Meireles
  7. Carlos Drummond de Andrade
  8. Érico Veríssimo
  9. José de Alencar
  10. Maurício de Souza

Confirmei essa minha intuição quando li outra informação: “O Sítio do Picapau Amarelo” é citado pelos leitores como uma das obras mais importantes para eles, perdendo apenas para a Bíblia… À frente até de Harry Potter, que teve que se contentar com o quarto lugar na mente dos leitores.

Os dez livros mais importantes para os leitores

  1. Bíblia
  2. O Sítio do Pica-pau Amarelo
  3. Chapeuzinho Vermelho
  4. Harry Potter
  5. Pequeno Príncipe
  6. Os Três Porquinhos
  7. Dom Casmurro
  8. A Branca de Neve
  9. Violetas na Janela
  10. O Alquimista

Isso mesmo! A Marquesa de Rabicó desbancou o bruxo ultra-pré-pós-tudo de Hogwarts… E olha que a boneca está completando 88 anos. Pela desenvoltura dela nem parece que já é uma senhora, né? Que botox que nada! O elixir da juventude é enchimento de macela e olhos de retrós!

Ah, preciso esclarecer que não tenho nada contra Harry Potter! Acho uma leitura muito divertida, prazerosa e uma porta de entrada para conhecer a mitologia medieval e outras leituras… Mas me levou a pensar os motivos do sucesso de Lobato. Ele certa vez, escreveu em carta para o escritor Godofredo Rangel, seu amigo:

Ando com idéias de entrar por esse caminho: Livros para crianças. De escrever para marmanjos já enjoei. Bicho sem graça. Mas para as crianças, um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do Robson Crusoe do Laemmert. Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora; sim morar, como morei no Robson e nos filhos do Capitão Grant. (Lobato, Monteiro. A Barca de Glever. São Paulo: Brasiliense, 1956.)

Parece que seu desejo foi atendido.

É claro que a fama do Sítio não se deve somente aos livros, as adaptações para TV ajudam muito… Entretando, para mim, algumas características das personagens infantis de Lobato têm aí também um papel fundamental! Taí um assunto pra um outro post





Reseana Murray: simplicidade profunda

22 07 2008

Há mais ou menos sete anos, num dos meus primeiros contatos “adultos” com a literatura infantil, li “Receita de arrumar gaveta” de Roseana Murray:

separe coisa por coisa:
de um lado o pólen do passado
as raízes do que foi importante
os retratos os bilhetes
os horários de chegada
de todos os navios-piratas
os sinos que anunciam
que há um amigo na estrada

do outro lado um espaço vazio
para o que vai acontecer
as surpresas do destino
os desatinos do acaso

Receitas de olhar, FTD.

Fiquei fascinado pelas imagens que o poema criou na minha cabeça: com um texto simples em palavras, me provocou sentidos abissais.

Roseana Murray lê o seu Rios da alegria (Moderna).

De lá para cá, sempre que encontro com um livro seu, o devoro… E constatei que a dualidade simplicidade-profundidade era uma característica recorrente de sua obra. Retratos (Cia. Editora Nacional), O silêncio dos descobrimentos (Paulus), Fruta no ponto (FTD), Terremoto furacão (Paulus), Classificados poéticos (Cia. Editora Nacional) são alguns dos meus preferidos. Conheci também poemas de Roseana para adultos, mas eles não têm o mesmo “poder” que os infantis (pelo menos sobre mim).

Se quiser experimentar um pouco da mágica de Roseana, acesse o site: www.roseanamurray.com. Lá você encotra um pouco sobre a autora, poemas e, inclusive, um e-book… o Variações sobre silêncio e cordas, que ela lançou recentemente para a internet. Ah, o e-book é ilustrado pelo bico-de-pena de Elvira Vigna, constante parceira literária de Roseana.





Leitura: espelho do leitor, espelho do texto

20 07 2008

Na última quinta-feira (17/7), tive o prazer de participar de um simpósio sobre literatura infantil na USP. Sob o título de “A narrativa ficcional para crianças e jovens e as representações literárias de práticas de leitura”, o simpósio foi um dos eventos do Congresso Internacional 2008 da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada).

As exposições giraram em torno de duas questões principais:

  1. de que forma o texto infantil reflete a sociedade que o criou: mostrando um tipo específico de leitor, um conceito de infância, uma moralidade social, costumes, um processo editorial etc.;
  2. que estratégias um texto infantil traz para que o leitor se veja refletido nele.

Como num jogo de espelhos, os textos infantis (como todo texto) são carregados preceitos morais e ideologias da sociedade, de certo modo numa tentativa de formar cidadãos segundo seus valores. De outro lado, o leitor busca no texto elementos de identificação: personagens e situações que condizam com seus valores pessoais e respondam a seus desejos e interesses.

Daí para mim a importância de que a formação crítica de leitores seja estimulada desde cedo… para que os pequenos, expostos constantemente a discursos ideológicos (não só nos livros, mas também na TV, na internet, e em todos os outros meios), possam perceber, entender e questionar esses textos.

Assim tavez possamos ter, num futuro, cidadãos mais conscientes. Para mim, esse é um dos grandes papéis da educação, e um dos únicos caminhos para uma sociedade melhor. O que acham?

Simpósio Abralic 2008

Prof. José Nicolau Gregorin Filho e profa. Maria Zilda da Cunha debatem sobre ideologia na literatura infantil, durante simpósio do Congresso Internacional 2008 da Abralic.

Para quem se interessar, fiz a seguir um resumo das três exposições mais relevantes do simpósio, com algumas observações pessoais:

Leitura: um jogo de espelhos

José Nicolau Gregorin Filho (USP – São Paulo/SP)

A partir da década de 1970, a literatura infantil no Brasil alcançou uma qualidade menos moralizante/dogmatizante e mais livre/estética (mas ainda assim, com função pedagógica, o que é quase indissocíavel da literatura para crianças). Principalmente desde então, ela tem espelhado a sociedade, os grupos sociais e suas transformações. Isso porque, segundo o prof. Nicolau, as LDBs (Leis de Diretrizes e Bases) e os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) homologam a discussão de temas considerados tradicionalmente “tabu” para a infância, a saber: a morte, o sexo e a violência. Como exemplo, é trabalhada a obra Um garoto chamado Rorbeto (Gabriel, o Pensador e Eduardo Bueno – Cosac Naify), que traz a história de um garoto que aprende a usar suas aparentes deficiências em seu favor. Assim, manifestam-se valores como inclusão e respeito às diferenças, defedidos pela sociedade contemporânea.

De estratégias de leitura aos desafios para medir a astúcia do viajante

Maria Zilda da Cunha (USP – São Paulo/SP)

A partir da metáfora do labirinto, a profa. Maria Zilda mostra um tipo de leitura, denominada por Lucia Santaella, como “imersiva ou navegadora”. Nesse tipo de texto, que tem por grande exemplo a obra de Jorge Luis Borges, o leitor é chamado a todo momento a optar por caminhos, uma vez que o texto deixa elementos abertos para intervenção do “viajante”. Entre outras obras, a profa. Maria Zilda, traz Zubair e os labirintos (Roger Mello – Cia. das Letrinhas) em que o leitor é levado junto com o protagonista para dentro de labirintos e, em determinado momento, inclusive, se confunde com este. A obra mostra um tipo de texto, com relações hipertextuais, que têm sido colocado em evidência, entre outros motivos, devido à emergência das novas mídias.

Narizinho e Emília: representações de cenas de leitura e construção do perfil da leitora novecentista na obra infantil de Monteiro Lobato

Patricia Katia da Costa Pina (UESC – Ilhéus/BA)

A partir de cenas das obras do Sítio do Picapau Amarelo em que a personagem Dona Benta lê para as personagens infantis, a profa. Patricia estabelece dois perfis de leitor, tendo por base as personagens Narizinho e Emília. Narizinho sempre ratifica (e às vezes amplia) o texto lido por Dona Benta e a interpretação da avó. Seus comentários são sempre paráfrases e reprodução das idéias do texto. O leitor tipo “Narizinho” seria então aquele leitor modelar, tradicional, que as famílias do início do século XX esperariam de suas crianças (Será que isso hoje mudou?). Já Emília transgride o sentido original dos textos e questiona a interpretação tradicional de Dona Benta. Seus comentários subvertem os textos e os parodiam. O leitor tipo “Emília”, seria o leitor crítico, que as diretrizes pedagógicas e as concepções modernas de infância esperariam das crianças (será que estamos rumando para isso?). Com isso, a profa. Patricia conclui que Lobato cria um recurso em que há duas possibilidades de identificação do leitor infantil: o leitor tradicional com a personagem Narizinho (e também com Pedrinho) e o leitor moderno com a personagem Emília.








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