Monteiro Lobato, de A a Z

21 11 2008

livro-a-livroEm 2008, completam-se 60 anos da morte de Monteiro Lobato, e 88 anos da publicação de sua primeira obra infantil, A menina do narizinho arrebitado (1920). Este livro, onze anos mais tarde, seria reescrito e ampliada sob o título de Reinações de Narizinho (1931).

Ainda que Lobato tenha sido também editor, autor de literatura adulta e figura importante da política nacional, sua popularidade se deve principalmente às histórias infantis do Sítio do Picapau Amarelo. São mais de vinte livros, que contam com várias edições, além de inúmeras adaptações para o teatro e cinco versões para a televisão.

Reinações de Narizinho (déc. 1940), Editora Brasiliense.Reinações de Narizinho (2007), Editora Globo.

Reinações de Narizinho, Editora Brasiliense (c. 1947), e em edição atual da Editora Globo (2007).

A editora Brasiliense, fundada em 1943 por Caio Prado Jr., tendo como sócio Monteiro Lobato, deteve até recentemente os direitos de publicação das histórias do Sítio. Em 2006, os herdeiros de Lobato passaram esses direitos à editora Globo. Desde então, a obra de Lobato, infantil e adulta, tem ganhado novas ilustrações, novo projeto gráfico e uma ótima distribuição.

Sem entrar no mérito da preferência pelo novo ou pelo antigo visual, o fato é que, com a mudança de editora - e com a presença diaria das personagens do Sítio na televisão -, a obra de Lobato recobrou fôlego, aparecendo com mais destaque nas livrarias e nas mãos dos leitores.

Com esse movimento editorial em torno de Lobato, têm chegado às livrarias também, aqui e ali, obras de referência sobre o autor. E, sem dúvida, uma das mais importantes foi lançada na semana passada na Livraria Cultura, em São Paulo.

No último dia 18/11, Marisa Lajolo (professora da Unicamp e do Mackenzie, especialista em leitura e em Lobato) e João Luís Ceccantini (professor da Unesp e especialista em literatura infantil) receberam amigos e convidados para autografar a obra Monteiro Lobato, livro a livro (Editora da Unesp, Imprensa Oficial). Estiveram presentes figuras importantes do meio editorial infantil, como o escritor Pedro Bandeira e os editores Plinio Martins Filho (Edusp), Maria Dolores Prades (SM) e Maristella Petrili (Moderna).

Claro que eu estava lá para garantir o meu. Chegando em casa, devorei as primeiras páginas. Imperdível! São 28 artigos sobre todas as publicações infantis de Lobato, muito bem escritos, que revêem e atualizam a pesquisa sobre o autor. Trata-se de uma obra de referência fundamental para quem quiser conhecer um pouco mais sobre Lobato, desejar iniciar uma pesquisa na área e até para os já iniciados.





Boneca de pano ganha de Harry Potter na mente dos leitores

23 07 2008
Em�lia, ilustrada por J. U. Campos (1947), e cena do filme Harry Potter e a Ordem da Fenix (2007)

Emília, ilustrada por J. U. Campos (1947), e cena do filme Harry Potter e a Ordem da Fenix (2007).

No começo do mês, saiu o relatório Retratos do livro no Brasil. Ele é resultado de uma extensa pesquisa promovida pelo Instituto Pró-Livro (uma parceria entre o governo e entidades privadas do livro no Brasil). A maioria dos dados apresentados, ainda que tristes constatações, não são novidade:

  • Apenas 8% da população considera a leitura uma atividade prazerosa, associando-a na maioria das vezes à obtenção de conhecimento.
  • Quase metade dos entrevistados (45%) não leu nenhum livro nos últimos três meses.
  • Dos outros 55%, metade são estudantes, que afirmam que lêem o que a escola indica (o que inclui os livros didáticos!)

Ainda assim, para a nossa literatura infantil, há notícias boas, como a de que o gênero está entre os quatro mais lidos (perdendo só para a Bíblia, em primeiro lugar, para os livros didáticos e para os romances). Além disso, cerca de 75% da crianças e adolescentes são leitores (20% a mais que a média).

Mas durante a leitura do relatório um dado curioso me surpreendeu: Lobato é o escritor mais admirado pelos leitores (e entre os 10 mais, há também Cecília Meireles e Maurício de Souza, autores reconhecidos por sua produção para crianças). O pai de Emília está à frente inclusive de Paulo Coelho e Jorge Amado (escritores bastante populares) e de Machado de Assis (considerado por muitos como o maior escritor da literatura brasileira)… É claro que Lobato tem também importantes obras de literatura para adultos, como Urupês e Negrinha, mas algo me diz que a Condessa de Três Estrelinhas tem um dedo nisso…

Os dez escritores mais admirados

  1. Monteiro Lobato
  2. Paulo Coelho
  3. Jorge Amado
  4. Machado de Assis
  5. Vinícius de Moraes
  6. Cecília Meireles
  7. Carlos Drummond de Andrade
  8. Érico Veríssimo
  9. José de Alencar
  10. Maurício de Souza

Confirmei essa minha intuição quando li outra informação: “O Sítio do Picapau Amarelo” é citado pelos leitores como uma das obras mais importantes para eles, perdendo apenas para a Bíblia… À frente até de Harry Potter, que teve que se contentar com o quarto lugar na mente dos leitores.

Os dez livros mais importantes para os leitores

  1. Bíblia
  2. O Sítio do Pica-pau Amarelo
  3. Chapeuzinho Vermelho
  4. Harry Potter
  5. Pequeno Príncipe
  6. Os Três Porquinhos
  7. Dom Casmurro
  8. A Branca de Neve
  9. Violetas na Janela
  10. O Alquimista

Isso mesmo! A Marquesa de Rabicó desbancou o bruxo ultra-pré-pós-tudo de Hogwarts… E olha que a boneca está completando 88 anos. Pela desenvoltura dela nem parece que já é uma senhora, né? Que botox que nada! O elixir da juventude é enchimento de macela e olhos de retrós!

Ah, preciso esclarecer que não tenho nada contra Harry Potter! Acho uma leitura muito divertida, prazerosa e uma porta de entrada para conhecer a mitologia medieval e outras leituras… Mas me levou a pensar os motivos do sucesso de Lobato. Ele certa vez, escreveu em carta para o escritor Godofredo Rangel, seu amigo:

Ando com idéias de entrar por esse caminho: Livros para crianças. De escrever para marmanjos já enjoei. Bicho sem graça. Mas para as crianças, um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do Robson Crusoe do Laemmert. Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora; sim morar, como morei no Robson e nos filhos do Capitão Grant. (Lobato, Monteiro. A Barca de Glever. São Paulo: Brasiliense, 1956.)

Parece que seu desejo foi atendido.

É claro que a fama do Sítio não se deve somente aos livros, as adaptações para TV ajudam muito… Entretando, para mim, algumas características das personagens infantis de Lobato têm aí também um papel fundamental! Taí um assunto pra um outro post